Voltando um ano antes, em 1917, temos a convocação de Neco para a Seleção Brasileira. Ele foi apenas o segundo jogador da história do Corinthians a ser convocado, sendo Amílcar Barbuy o primeiro, em 1916.
O atacante viria a ser convocado novamente no ano de 1919, para disputar o Campeonato Sul-americano (também disputou em 1917). Neco foi campeão do Campeonato Sul-americano com a Seleção Brasileira em 1919 e 1922, e foi artilheiro de 1919 com 4 gols marcados, ao lado de Friedenreich.
Após ser campeão pela Seleção Brasileira, Neco recebeu uma proposta muito atraente do Fluminense. O empresário carioca Arnaldo Guinle ofereceu 100 mil-réis de luvas e um emprego nas Docas caso ele se juntasse ao Fluminense. Financeiramente, uma proposta bem vantajosa, mas Neco a recusou e permaneceu no Timão.
Um jogador competitivo, explosivo e temperamental. Era assim que Neco era chamado pelos torcedores. Em 1920 tivemos um capítulo inusitado e até cômico na história de Neco. Em setembro daquele ano, o Corinthians enfrentou o Palestra Itália no Parque Antártica, e venceu por 2 a 1. Na época, os jogadores de futebol utilizavam cintos de couro para prender seus calções. Uma das versões dessa história diz que, ao sofrer uma falta, Neco estava ajeitando sua cinta e o calção enquanto reclamava com o árbitro. Aqueles que viram a cena de longe imaginaram que o jogador estava ameaçando o árbitro. Tempos depois a história foi ganhando novas versões: em outra, Neco perseguia o árbitro para agredi-lo. Fato é que essa lenda fez a torcida corinthiana criar o grito: “Tira a cinta, Neco! Tira a cinta, Neco!”. Sempre que os jogos do Timão começavam a ficar complicados e havia um erro por parte da arbitragem, a torcida soltava esse grito para incentivar Neco.
Em 12 de outubro de 1929 Neco recebeu uma bela homenagem no Parque São Jorge (onde o Corinthians mandava seus jogos desde 1928, na Fazendinha). Detalhe: Neco ainda era jogador do Timão quando a homenagem foi feita. Uma homenagem para um jogador que, àquela época, era multi-campeão pelo Corinthians e já era ídolo do clube.
O Corinthians organizou um jogo amistoso para estrear o busto de Neco junto ao Atlético Mineiro. Vale dizer que, meses antes, o próprio Mineiro convidou o Timão para a inauguração do seu estádio, o Estádio Presidente Antônio Carlos, vencendo o clube paulista por 4 a 2, com os jornais locais repercutindo: “Vencemos os reis do futebol!”. Voltando a 1929: o jogo aconteceu na Fazendinha, e o Timão aplicou uma sonora goleada de 11 a 2 no clube mineiro (o maior placar da história desse confronto).
Em fevereiro de 1930, o Corinthians viria a disputar o título de “Campeão dos Campeões” (ou Taça APEA) contra o Vasco da Gama. Essa competição reunia o campeão paulista de 1929 e o campeão carioca do mesmo ano em partidas de ida e volta. No jogo de ida, em São Paulo, o Corinthians venceu o cruzmaltino por 4 a 2. Em São Januário, em uma partida épica, o Corinthians virou um placar de 2 a 0 contra para um 3 a 2 à favor. Quando cantamos “Eternamente, o Campeão dos Campeões” no hino do Timão, estamos fazendo uma alusão a conquista desta taça. Mesmo não entrando em campo na decisão, Neco fazia parte do elenco que conquistou esse título. Mais um para a longa lista de troféus dele.
O ano de 1930 seria o último de Neco pisando no gramado com a camisa do Timão, mas não porque ele iria para outro clube, e sim porque iria se aposentar. Neco vinha sendo reserva há algum tempo, pois suas contusões eram constantes e a idade já vinha chegando. A última partida de Neco pelo Corinthians foi o empate em 2 a 2 contra o Internacional da Capital.
Mesmo tendo pendurado suas chuteiras, Neco se manteve ligado ao Corinthians como comandante técnico da equipe em 1937 e 1938. Na passagem em 1937 Neco foi fundamental para a conquista do Campeonato Paulista. É bem verdade que o Corinthians venceu o Paulista de 1938, também, mas Neco não era o técnico daquele time, e sim Armando Del Debbio.
Como jogador do Corinthians, Neco conquistou 8 títulos considerados “principais”, sem considerar as Taças Ballor, Torneios Início, Taça APEA e etc. Já como treinador do Corinthians, Neco conquistou o Campeonato Paulista de 1937.
Neco, infelizmente, veio a falecer no dia 31 de maio de 1977, com 82 anos. O Corinthians, na época, vivia um jejum dentro dos gramados: eram 23 anos sem levantar uma taça. O Timão venceria a Ponte Preta na final do Campeonato Paulista daquele mesmo ano, no dia 13 de outubro.
Uma passagem histórica é o que define a de Neco pelo Corinthians. Um homem que dedicou 17 anos de sua vida ao clube. Que “roubou” pelo clube. Deu sangue e suor pelo clube. Viveu pelo clube. Como disse o jornalista e escritor Lourenço Diaféria em seu livro chamado Coração Corinthiano: “Neco não apenas jogava no Corinthians, Neco era o Corinthians.”
Vivemos em um mundo em que, com todas as facilidades que a tecnologia oferece, muitos ex-jogadores considerados ídolos de diversos clubes escolhem vir a público, em seus programas de televisão ou podcasts, para falar mal dos atletas atuais que defendem a camisa pela qual eles se consagraram. São ex-jogadores que já fizeram muito por seus antigos clubes e que, realmente, fizeram por merecer a alcunha de ídolos; ex-jogadores que zombam da cara dos torcedores que os contrariam por meio de suas redes sociais; ex-jogadores que dizem em rede nacional que torcedores deveriam apanhar da polícia dentro do próprio estádio; ex-jogadores que foram colocados no “pedestal” pelos próprios torcedores. Vivemos em um mundo no qual os ídolos contribuem, dia após dia, para a piora dos clubes em que jogaram. Ídolo nenhum é maior que o clube. Nenhum ídolo é maior do que a torcida, afinal, é a torcida quem transforma jogadores em ídolos.
Eu poderia, sim, ter escrito um texto sobre outros grandes ídolos da história do Corinthians como Luizinho, Teleco, Cláudio, Baltazar, Basílio, Sócrates, Wladimir, Zé Maria e etc., mas escolhi Neco como o personagem principal pois muitos torcedores de hoje em dia não fazem ideia de tudo que esse cara fez pelo clube. Nem ao menos o conhecem.
Entendam que esse texto não apaga e não diminui em nada o que os jogadores considerados ídolos do Corinthians fizeram depois do Neco, de maneira nenhuma. Esse texto fala sobre o que, a meu ver, deveria ser o modelo do que é ser um ídolo: um cara que viveu de tudo no clube. Fala sobre o primeiro grande ídolo da história do Sport Club Corinthians Paulista. Fala sobre Manoel Nunes, o NECO.