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Reflexão · 6h atrás

QUE TODOS OS ÍDOLOS FOSSEM COMO NECO (PARTE 1)

QUE TODOS OS ÍDOLOS FOSSEM COMO NECO (PARTE 1)

Nascido em 7 de março de 1895, Manoel Nunes, (conhecido como Neco), foi o primeiro grande ídolo da extensa e grandiosa história do Sport Club Corinthians Paulista.

Em 1910, quando os operários Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone criaram o Corinthians, o jovem Neco tinha seus 15 anos e, desde essa época, já estava ligado ao clube. Naquele tempo alguns clubes utilizavam um “sistema de quadros” no seu elenco. Os quadros eram, basicamente, diferentes equipes de um mesmo clube. O Corinthians chegou a ter três quadros nos primórdios de sua história. O primeiro quadro era a equipe principal, com os jogadores que disputariam os jogos mais importantes; o segundo quadro tinha jogadores que poderiam vir a substituir ou ocupar posições na primeira equipe; já o terceiro quadro era formado por outros associados do clube que praticavam futebol, também. Vale dizer que não havia uma média ou um padrão de idade para se estar em um dos três quadros. Não era como um Sub-17 ou Sub-20. Assim, com seus 15 anos de idade, Neco estava no terceiro quadro. Um fato curioso é que o irmão mais velho de Neco era César Nunes, um dos principais jogadores do Corinthians desde o seu surgimento. César Nunes foi responsável por aproximar Neco do clube alvinegro.

No ano de 1914 o Corinthians conquistou o seu primeiro título: o Campeonato Paulista. Nessa época, o torneio era organizado pela Liga Paulista de Foot-Ball. Houve uma questão envolvendo diferentes ligas paulistas naquele período, mas não vou entrar nesse assunto especificamente.

O Timão foi campeão invicto daquela competição, com 10 vitórias em 10 jogos. Um feito inédito para a época. O artilheiro dessa campanha corinthiana foi ele, Neco, com 12 gols. O ataque do Corinthians era avassalador.

O próximo capítulo dessa história acaba ficando um pouco confuso, pois algumas fontes dizem que ele aconteceu em 1912, enquanto outras dizem que foi em 1915. A versão mais plausível, ao meu ver, é de que o fato aconteceu em 1915. A situação financeira do clube já era bem complicada. A sede do Corinthians, localizada na região da Lapa, era uma sala pequena que abrigava as taças que o clube conquistara anteriormente (tanto as de várzea quanto o título paulista). O aluguel do estabelecimento era de 35 mil-réis, um valor considerado “alto” para a época. Com as contas apertadas, o clube acabou atrasando o aluguel. O dono do imóvel decidiu fechar as portas da sede e disse que só as abriria novamente caso o clube pagasse os valores atrasados. Os bens do Corinthians ficaram ameaçados de confisco, e isso preocupava a todos. Foi então que Neco teve uma ideia: ele esperaria a noite chegar e invadiria o local. Na calada da noite, Neco retirou de lá tudo que tinha valor para o Corinthians, guardando as coisas até que o clube tivesse uma nova sede. Ainda assim, o aluguel foi pago meses depois ao locador.

Tudo que é ruim ainda pode piorar, e foi o que aconteceu. Como eu disse anteriormente, houveram problemas naquela época envolvendo diferentes federações de futebol em São Paulo. O Corinthians disputava o campeonato da LPF, mas existia a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA). Sem entrar em todos méritos dessa situação complicada: a APEA foi criada por clubes que se desvincularam da LPF, organizando um campeonato mais elitizado. A APEA estava de olho no Corinthians desde que o clube foi campeão paulista de 1914, e queria que ele fizesse parte do seu próprio campeonato. Há apenas um problema nessa história: quando o Corinthians desvencilhou-se da LPF para se juntar à APEA, a segunda federação acabou “barrando” o Timão pois seu campeonato já havia se iniciado. Isso fez com que o Corinthians ficasse sem competições para disputar naquele ano. De acordo com o historiador do Corinthians, Fernando Wanner, a APEA fez isso de propósito para prejudicar o Corinthians. Fato é que, sem torneios para disputar, o Corinthians começou a perder seus jogadores para outros clubes. Alguns saíram em definitivo, outros foram emprestados temporariamente para outros clubes.

Acho interessante destacar que 5 jogadores que foram muito importantes para o Corinthians desde o início até aqui foram jogar no Palestra Itália (clube viria a ser o Palmeiras). Entre esses jogadores temos Bianco Gambini, Amílcar Barbuy, Américo Fiaschi, Fúlvio Benti e Francisco Police. Neco, por outro lado, foi jogar no Mackenzie, mas toda vez que o Corinthians ia jogar um amistoso ele voltava ao clube. Mesmo com todas essas dificuldades, o ano de 1915 terminaria bem para o Corinthians, já que o clube foi desafiando cada clube que estava ligado às federações e vencendo todos eles. É desse período, inclusive, que o nome “Timão” foi ligado ao Corinthians (algumas fontes dizem que o nome veio por volta dos anos 50/60).
Em 1916, Neco, assim como outros jogadores, retornou ao Corinthians em definitivo. O clube, também, retornou a LPF. A LPF até tentou de certa maneira boicotar o Corinthians, dizendo que os jogadores que disputaram torneios por outro clubes no ano anterior, não poderiam disputar o torneio vigente. O Corinthians, obviamente, não ficou calado e ameaçou a sair de vez da LPF. As coisas se resolveram com a liga organizando um jogo eliminatório contra um clube chamado Antártica, e o Corinthians venceria esse duelo por 8 a 0. Qualificado para disputar o torneio daquele ano, o Corinthians conquistou o segundo título de sua história com mais uma campanha invicta.

Dando um salto no tempo, vamos para o ano de 1918 para falar sobre o episódio histórico do “Jogo do Osso”. Corinthians e Palestra Itália vinham se enfrentando nos campeonatos e em “amistosos”. O quinto Dérbi Paulista começaria antes das duas equipes entrarem em campo. A história registra que, antes da partida que aconteceria no Campo da Floresta, os jogadores do Corinthians estavam reunidos no restaurante de um hotel quando um grupo de torcedores do Palestra cantava a seguinte canção: “É canja! É canja! É canja de galinha! Arruma outro time para jogar com a nossa linha!”. Durante a cantoria um osso foi lançado na mesa onde os corinthianos estavam, e nele, estava escrito a frase: “O Corinthians é canja para o Palestra”. Há quem diga que quem escreveu aquilo no osso foi o ex-jogador do Corinthians, Bianco. Neco, irritado, guardou aquele osso para si.

No dia 13 de maio de 1918 as equipes entraram em campo pelo Campeonato Paulista. O Palestra Itália sai na frente do placar, mas com gols de Basílio Cavinato e Neco, o Corinthians vira o jogo. Para o azar do Timão, os rivais viraram o placar para 3 a 2. Os palestrinos estavam convencidos da vitória, mas no final da partida Neco fez o gol do 3 a 3.

Após a partida, Neco pegou o osso utilizado pelos rivais para provocar e escreveu a seguinte frase: “Este osso era para a canja. Não cozinhou por ser duro”. O item está até hoje à mostra no Memorial do Corinthians, no Parque São Jorge.

Ainda em 1918, antes do clássico citado, o Corinthians obteve seu primeiro estádio: o Campo da Ponte Grande. O estádio ficava localizado às margens do Rio Tietê, em São Paulo, e foi inaugurado em março daquele ano. Inclusive, o jogo de inauguração do Campo da Ponte Grande foi um 3 a 3 contra o Palestra Itália (não o mesmo Jogo do Osso).

A Prefeitura de São Paulo havia arrendado o terreno para o Corinthians, bastava o clube construir o estádio. A construção da Ponte Grande por si só era um dos grandes passos maiores que a perna que o Corinthians deu em sua história, já que não havia dinheiro para a construção. Tudo foi feito em um sistema de mutirão, com a ajuda de jogadores, sócios e administradores do clube. Entre eles, lá estava Neco, carpindo lote e se consolidando cada vez mais na história do clube. Na época, todos os jogadores eram sócios do clube e tinham que pagar uma mensalidade para poder atuar. Os que ajudaram não precisaram pagar a mensalidade. Esse mutirão histórico é mais um dos motivos que engrandecem o Corinthians e mostram o porquê do nome “Time do Povo”.

Sobre o autor

Cauan Barbosa
@Cauan_Barbosa
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