Björk - Vespertine
Björk funde a pureza do cisne branco e o ocultismo do negro numa aconchegante tarde de inverno, íntima, romântica e sensual. Venerado na internet como o melhor álbum feminino e um dos melhores de eletrônica e pop da história, Vespertine parece ter um tipo de aura, alma própria — Björk parece concordar, contra-argumentando aqueles que dizem que as máquinas que produzem música eletrônica deixam a arte desalmada.
Muitos, entre críticos e público, pensavam não ser possível superar a altura alcançada por Homogenic, mas a cantora se prova novamente com facilidade ser uma das maiores artistas que já viveu, em um novo nível de performances vocais, letras, instrumentação e produção minimalista, esta última feita quase sozinha. Björk demonstrou uma justa insatisfação em ter seu trabalho reduzido aos homens que auxiliaram na sua produção — nesse álbum, as micro-batidas que fazem o almejado ritmo invernal foram programadas quase inteiramente por ela mesma, com ajuda do duo eletrônico experimental Matmos. Tudo é pensado de forma criteriosa para criar uma atmosfera em partes iguais caseira e extraterrestre, desde os instrumentos agudos, como a harpa, as cordas e as caixas de música feitas especificamente para o projeto, até as batidas que dão vida própria a sons cotidianos, como cartas sendo embaralhadas e gelo quebrando.
Dando continuidade aos temas do Homogenic de produção de um casulo aconchegante, de All Neon Like, e de encontrar amor inesperadamente, de All Is Full of Love, Vespertine tem como tema o raro achado de um amor romântico-sexual puro e especial em Matthew Barney, que se tornaria seu parceiro por anos e no futuro viria a quebrar seu coração, levando à criação de seu álbum Vulnicura. Enquanto trabalhava em Selmasongs, a trilha sonora de "Dançando no Escuro", produzia como hobby "Domestika", nome original de Vespertine, em seu laptop, refletindo um escapismo da dor que enfrentou pelo assédio do diretor do filme.
Introvertida, volta-se para o sexualmente explícito, visto em Cocoon e Pagan Poetry, como forma de visão artísticas. De softwares e sites, ironicamente, nasceram músicas tranquilas e extremamente humanas, inspiradas, por exemplo, por um poema de E. E. Cummings (Sun in My Mouth) e sonhos vívidos (Beiro m, que lembrou aos críticos o samba), com a ajuda principal de músicos eletrônicos, como Opiate e console, e clássicos, como a harpista Zeena Parkins
O resultado é um projeto de música eletrônica, electro, techno, psicodélica, art e glitch pop, folktronica e trip hop, que experimentalmente mistura as sensibilidades dos gêneros minimalistas com a energia dos maximalistas, algo que viria a influenciar muitos outros álbuns, como Kid A do Radiohead.
A tundra fria, porém emotiva, de Björk, onde brilham as luzes do norte e onde os deuses e os espíritos da natureza dançam em conjunto, erótica e suave como a história de Leda e o Cisne, é um dos maiores álbuns já feitos.
@Discarto