Existe uma daquelas histórias absurdas da indústria dos videogames que parecem uma lenda de internet — até você colocar as duas músicas para tocar lado a lado.
Em 2000, o Stratovarius lançou Hunting High and Low, uma das faixas mais conhecidas do álbum Infinite. A música se tornou um clássico do power metal e chegou ao quarto lugar nas paradas da Finlândia.
Dois anos depois, em Dragon Ball Z: Budokai, apareceu uma faixa chamada “Challengers”, composta por Kenji Yamamoto. A música ficou especialmente associada às batalhas no planeta Namek e acabou se tornando uma das faixas mais lembradas pelos jogadores que cresceram com o jogo.
O problema?
Escute Hunting High and Low. Depois escute Challengers.
A semelhança não está simplesmente na atmosfera, no gênero ou em uma influência musical genérica. O que chamou a atenção dos fãs foi a proximidade de elementos melódicos, riffs, estrutura e arranjo. Existem até mashups produzidos ao longo dos anos colocando as duas gravações simultaneamente, justamente para evidenciar a semelhança.
E “Challengers” não era um caso isolado.
Kenji Yamamoto, responsável por diversas músicas dos jogos de Dragon Ball daquela época, acabou envolvido em um escândalo muito maior. Suas composições foram acusadas de reproduzir elementos de diversas obras ocidentais, incluindo músicas associadas a bandas como Pink Floyd, Black Sabbath e Stratovarius.
A situação chegou ao ponto de a própria Toei Animation anunciar, em 9 de março de 2011, que substituiria a trilha sonora de Dragon Ball Kai devido à existência de músicas que infringiam direitos de terceiros. As composições de Yamamoto foram posteriormente substituídas pelas músicas de Shunsuke Kikuchi, compositor da trilha original de Dragon Ball Z.
E as consequências não ficaram restritas ao anime.
Nas relançamentos posteriores dos jogos, incluindo a Dragon Ball Z: Budokai HD Collection, as músicas associadas ao trabalho problemático de Yamamoto também foram retiradas e substituídas.
É aí que a história fica particularmente curiosa.
Para uma geração de jogadores, “Challengers” era simplesmente a música de Dragon Ball. Era aquela faixa que tocava enquanto Goku, Vegeta, Freeza e companhia destruíam Namek. Muita gente ouviu aquela música durante centenas de horas sem sequer imaginar que estava escutando algo tão próximo de uma composição do Stratovarius.
E existe uma ironia ainda maior: para algumas pessoas, foi justamente Dragon Ball Z: Budokai que serviu como porta de entrada para o próprio Stratovarius.
Ou seja: uma cópia acabou funcionando, involuntariamente, como propaganda para a obra original.
O caso também mostra uma coisa interessante sobre videogames: uma trilha sonora pode ficar tão associada à memória afetiva de um jogo que, para o jogador, ela se torna “a música daquele universo”. Mas isso não transforma automaticamente a origem da composição.
“Challengers” pode ser uma música nostálgica, icônica e absolutamente marcante para quem jogou Budokai — e ainda assim estar no centro de uma das histórias mais curiosas de apropriação musical da história dos jogos de Dragon Ball.
No fim, talvez a melhor maneira de entender o caso seja simplesmente fazer o teste:
Hunting High and Low → Stratovarius → 2000.
Challengers → Dragon Ball Z: Budokai → 2002.
Agora coloque as duas para tocar.
E tire suas próprias conclusões.