Por: Ivan Santos, Cozinha Musical
Editoria: Música | Indie Rock / Pós-Punk
Lançamento: 2024
Entre guitarras brilhantes, humor seco e histórias sobre a vida cotidiana, New Town Dream transforma pequenas cenas da Inglaterra em um retrato vibrante de nostalgia, desencanto e cultura pop.
Um sonho construído com guitarras
Em New Town Dream, segundo álbum dos Neutrals, a banda californiana mergulha profundamente na estética do jangle-pop, C86 e pós-punk britânico. Liderado pelo escocês Allan McNaughton, o trio formado também por Lauren Matsui e Philip Lantz constrói 13 faixas que parecem pequenas histórias encontradas nas ruas de uma cidade inglesa.
O álbum tem apenas cerca de meia hora, mas aproveita cada minuto. As guitarras são rápidas e cristalinas, o baixo mantém as músicas em movimento e a bateria dá às faixas uma energia quase sempre inquieta. Referências a Television Personalities, The Wedding Present, The Jam e à tradição C86 são evidentes, mas aparecem de maneira natural.
O cotidiano como matéria-prima
O grande mérito de New Town Dream está nas histórias aparentemente pequenas. Professores substitutos, motoristas de ônibus, restaurantes, agentes de viagem e personagens anônimos tornam-se protagonistas.
“That’s Him on the Daft Stuff Again” e “Wish You Were Here” mostram o lado mais imediatamente pop da banda, enquanto “Travel Agent’s Windows”, “Last Orders” e “Steven Proctor, Bus Conductor” revelam o talento de McNaughton para transformar situações banais em pequenas crônicas musicais.
Há também uma dimensão histórica. O conceito do álbum dialoga com as chamadas New Towns britânicas, comunidades planejadas criadas no pós-guerra para aliviar a pressão populacional das grandes cidades. O disco olha para esse passado sem transformar suas canções em simples documentos históricos.
Quando o pós-punk encontra o humor
A banda sabe equilibrar melancolia e ironia. “Stop the Bypass”, inspirada nos protestos do Pollok Free State, acrescenta uma dimensão política ao álbum, enquanto “Substitute Teacher” transforma uma figura passageira da escola em um personagem memorável.
O momento mais inesperado surge em “How Did I Get Here”, faixa eletrônica que rompe temporariamente com as guitarras do restante do disco. É uma experiência curta e estranha, mas ajuda a impedir que o álbum se torne excessivamente previsível.
No encerramento, “Leisureland” recupera a delicadeza e deixa uma sensação de despedida, funcionando como conclusão adequada para esse passeio por personagens, lugares e memórias.
Veredito
New Town Dream é um álbum que encontra beleza no cotidiano. Os Neutrals não precisam de grandes discursos ou produções grandiosas: bastam guitarras jangly, boas melodias e histórias de pessoas comuns.
É um disco nostálgico sem ser simplesmente saudosista, engraçado sem perder a melancolia e profundamente britânico apesar de ter sido criado por uma banda da região da Baía de São Francisco.
Cotação: ★★★★½ — Excelente
Faixas de destaque: “Wish You Were Here”, “That’s Him on the Daft Stuff Again”, “Stop the Bypass”, “Last Orders”, “The Iron That Never Swung” e “Leisureland”.
Essencial porque: transforma o cotidiano, a memória e a cultura pós-punk em canções curtas, inteligentes e cheias de personalidade.
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Sintonia Fina/ Neutrals – New Town Dream: o charme inquieto do pós-punk britânico