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Reflexão · 21/09/2026

(DIÁRIO DE BORDO) O futebol não nasceu das bets e não precisa viver delas

(DIÁRIO DE BORDO)  O futebol não nasceu das bets  e não precisa viver delas

Por Ivan Santos | 21 de setembro de 2026

O futebol brasileiro existiu durante décadas sem depender das bets. Clubes foram campeões, torcidas lotaram estádios, jogadores se transformaram em ídolos e a paixão pelo esporte atravessou gerações muito antes de as casas de apostas ocuparem camisas, placas, transmissões e espaços cada vez maiores no futebol.

Por isso, causa preocupação ver parte do futebol tratar o dinheiro das bets como se fosse indispensável à sobrevivência do esporte.

Clubes e entidades esportivas têm defendido a permanência das empresas de apostas regulamentadas como importantes fontes de receita. Em manifesto recente, algumas das principais equipes brasileiras afirmaram que uma restrição ao mercado poderia comprometer financeiramente o futebol.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita:

Em que momento o futebol passou a precisar tanto das apostas para existir?

O problema não é apenas financeiro. É também social.

Quanto mais a publicidade das bets se mistura ao futebol, maior é a exposição do torcedor a uma atividade que pode provocar endividamento e transtorno do jogo. Uma pesquisa divulgada em julho apontou que 68% dos entrevistados defendiam a proibição do patrocínio das bets no futebol por entenderem que as apostas prejudicam torcedores e famílias.

O futebol tem uma força enorme sobre o imaginário popular. Crianças crescem acompanhando seus clubes. Jovens vestem as camisas de seus ídolos. Famílias se reúnem para assistir aos jogos.

Quando uma casa de apostas aparece constantemente nesse ambiente, a mensagem comercial pode acabar se confundindo com a própria experiência esportiva.

E é justamente aí que o debate precisa ir além do dinheiro.

O governo prepara novas medidas para restringir o setor, enquanto o debate sobre publicidade e patrocínio ganha força no Congresso. Uma proposta aprovada pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, por exemplo, prevê restrições amplas à publicidade e ao patrocínio de apostas, embora ainda esteja sujeita à tramitação legislativa.

Não se trata de ignorar o impacto financeiro que os patrocínios representam atualmente. Trata-se de perguntar se o futebol deve construir seu futuro dependendo de uma indústria cuja atividade pode causar danos a parte de seus próprios consumidores.

O futebol sempre foi maior que uma marca estampada na camisa.

Foi maior que patrocinadores. Foi maior que contratos milionários. Foi maior que interesses comerciais.

O futebol nasceu da bola, da arquibancada, da rua, do campo de terra e da paixão de quem joga e de quem torce.

As bets chegaram depois.

E talvez seja hora de o futebol brasileiro lembrar que uma fonte de receita não pode se transformar em uma necessidade permanente quando o custo social também precisa entrar na conta.

VEREDITO

O debate sobre as bets não pode ser reduzido à pergunta sobre quanto dinheiro elas colocam no futebol. É preciso discutir também quanto a exposição às apostas pode custar às famílias e aos torcedores.

O futebol existiu antes das bets e pode continuar existindo depois delas. O desafio é encontrar um modelo em que a sustentabilidade financeira do esporte não seja construída à custa da vulnerabilidade de quem está do outro lado da tela.

O futebol não nasceu das bets. E não precisa terminar dependendo delas.

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Sobre o autor

Ivan Santos ✓
@Ivan Santos
Professor de Música | Produção e Trilhas Sonoras
Jornalista Esportivo | Redator de Cultura